Punica granatum

               Quem no Nordeste, ou mesmo no Brasil, já não ouviu falar da Romã?! Diz uma velha simpatia que, quem no dia seis de janeiro, dia dos Santos Reis, chupar seis caroços de romã e guardar na carteira as sementes, embrulhadas num papel, terá muita sorte com dinheiro nos 365 dias seguintes. Se quiser a continuação da prosperidade, é só repetir a simpatia no ano seguinte. Conta a lenda que Prosérpina, filha da deusa da agricultura Ceres, quando colhia flores em um monte da Sicília, foi raptada por Plutão, deus dos infernos, que precisava urgentemente de uma esposa. Ceres, desesperada, pediu ajuda aos outros deuses do Olimpo, que não lhe deram atenção. Como vingança, ela passou a acabar com a agricultura, e portanto com a produção de alimentos. Os homens passaram a morrer de fome. Júpiter percebeu que sem homens não haveria deuses, já que estes só existiam graças à adoração dos humanos. Júpiter pediu a Plutão o retorno de Prosérpina, mas isto só seria possível se elsa não tivesse comido nada no reino dos mortos. Mas, ao entrar lá, ela notara um pé de romã, com as sementes brilhando como rubis no fruto entreaberto: ela não resistiu ã tentação e comeu seis grãos. Foi feito então, um acordo entre Ceres e Plutão: Prosperina passaria seis meses com Plutão e seis meses com a mãe Ceres. O resultado disto foi o aparecimento do inverno na terra (quando Prosérpina fica no reino dos mortos) e do verão, que mostra a alegria de Ceres pela presença da filha.

               A romã, denominada cientificamente de Punica granatum, tem sua procedência um tanto incerta: algumas fontes indicam que veio do Oriente, mais especificamente do Irã ou do Afeganistão, outras apontam como local de origem a região do Norte da África ou ainda o Sul da Europa, na região mediterrânea. Alguns autores afirmam que a romã é originária da Pérsia e que foi domesticada 2.000 anos antes de cristo e difundida para o resto do mundo através do Irã. Foi introduzida no Brasil pelos portugueses já na época do povoamento Pertencente à família das Punicáceas, se adapta bem em regiões de clima tropical e subtropical sendo cultivada em todas as regiões quentes do planeta tendo uma certa resistência às geadas, o que facilitou a sua difusão.

               É uma árvore de porte pequeno, tendo normalmente cerca de dois metros de altura podendo chegar a mais de quatro metros, tendo a característica de se ramificar bastante. Para um bom desenvolvimento, a romã deve ser plantada em solo leve e profundo, com boa disponibilidade de água. Dos ramos acinzentados nascem folhas alternadas e alguns espinhos. As folhas das plantas adultas são de um verde brilhante e em algumas variedades, avermelhadas quando novas. No inverno, principalmente nas regiões mais frias, é comum a queda das folhas. Quando florida, a romãzeira demonstra por que é tão apreciada com planta ornamental. Suas flores, geralmente solitárias ou agrupadas em duas ou três, são muito bonitas e têm um colorido chamativo, de um vermelho intenso. Elas aparecem nas extremidades dos galhos e mais raramente nas axilas das folhas.

               O fruto possui um formato esférico, com um pouco mais de 10 cm de diâmetro. Sua casca é lisa e inicialmente amarelo esverdeada mas, a medida que vai amadurecendo vai adquirindo uma coloração vermelha. Do lado oposto ao pedúnculo, a romã possui um cálice duro e persistente, em tudo semelhante a uma coroa, marca registrada da fruta. Embora não tenha relação com o sabor ou a saúde da fruta, a presença da coroa é fundamental para os consumidores de muitos países, sobretudo os europeus, que só aceitam romãs com a coroa completa, sem nenhuma ponta quebrada, talvez para determinar se a fruta foi bem cuidada por ocasião do transporte. Dentro da fruta há um sem-número de sementes, intercaladas por membranas esbranquiçadas separando os gomos. As sementes são envolvidas por uma película transparente, que contem um líquido vermelho.

               A romãzeira pode ser propagada através de estacas, sementes, por mergulhia ou alporquia. Apesar de ter seus inconvenientes, o plantio por sementes é o mais utilizado na cultura, mesmo sem ter sementes selecionadas no mercado. As sementes possuem um baixo poder de germinação, sendo necessário o uso de artifícios para a quebra da dormência. As sementes devem ser deixadas na geladeira pelo período mínimo de dez dias, a uma temperatura de 20 graus. O tratamento com hormônios ou com métodos mecânicos não foram eficientes na quebra de dormência da romã. Depois da vernalização, como é chamado o processo citado acima, as sementes são plantadas num canteiro contendo areia grossa e adubado com esterco de gado e húmus e, logo a seguir, devem ser irrigadas.

               Quando as plantinhas atingirem cerca de 10 cm de altura, devem ser repicadas para sacos de polietileno preto, contendo um substrato leve, composto de uma mistura de solo e esterco de curral na proporção de 3:1, e devem ser colocadas em local sombreado até que atinjam de 30 a 40 cm de altura, quando deverão ser transplantadas para o local definitivo. As mudas deverão ser colocadas em covas de 40 X 40 X 40cm, devidamente adubadas e tendo-se o cuidado de deixar o pH do solo em torno de 6,5 com a incorporação de calcário dolomítico ao mesmo 3 meses antes do plantio.

               Apesar de ainda não se ter estudos que definam o espaçamento a ser utilizado na cultura, é comum usar-se 6 metros entre plantas e de 7 a 8 metros entre fileiras, tendo-se desta forma de 208 a 238 plantas por ha. Conforme a romãzeira vai crescendo, a grande quantidade de ramos pode se tornar muito pesada, causando o tombamento da planta. Para evitar que isto ocorra, é necessário que se efetue um tutoramento, fincando-se uma estaca ao lado do tronco e amarrando-se uma à outra. Uma outra medida preventiva contra o tombamento, alem do tutoramento, é fazer-se mergulhia em alguns ramos inferiores da planta, enquanto ainda é jovem. Com essa auto-sustentação, a árvore terá maior fixação no terreno. Depois de algum tempo, esses ramos criarão raízes e se desprenderão do tronco principal, formando novas plantas. Nesse ponto os riscos de tombamento serão menores, pois a planta-mãe e as filhas se sustentarão mutuamente. A romãzeira requer irrigação nos dias mais quentes ou nas estiagens, tomando-se o cuidado de não encharcar o solo para evitar o aparecimento de fungos e conseqüente podridão das raízes. A planta deve ser adubada duas vezes ao ano com cerca de 20 kg de esterco de gado e adubos químicos de acordo com a análise do solo.

               A planta começa a produzir a partir do terceiro ou quarto ano de vida, mas só atinge a produção plena a partir do quinto ano. Nesta fase cada planta pode fornecer cerca de 300 frutos/ano. A produção varia de um ano para o outro, sendo alternada em anos produtivos e anos de baixa produção. A colheita é efetuada com os frutos ainda verdes ou "de vez" para poderem chegar ao destino em perfeito estado de conservação.

               Alem de ser consumida in natura, a romã também é utilizada no preparo de bebidas, como sucos e licores. Sua casca é muito rica em tanino, não sendo utilizada na alimentação humana, mas muito usada no curtimento de couros. A fruta possui excelentes propriedades medicinais: tanto o sumo quanto a casca têm ação anti-helmíntica e antiinflamatória. Na Europa é amplamente utilizada na industria farmacêutica e entra inclusive na composição de alguns remédios que combatem a tênia (verme intestinal vulgarmente chamada de solitária). Na medicina caseira, a romã goza de uma reputação ainda maior. A casca das raízes também tem fama de combater vermes. O chá das cascas do fruto é tido como antidiarréico; já água em que se cozinham as folhas é usada para lavagens dos olhos nas conjuntivites; e; por fim, a infusão das flores é empregada em gargarejos, para aliviar as inflamações na boca e na garganta.

               Não se pode esquecer que, alem disso tudo, a romãzeira é uma planta ornamental. Vistosa e de belas flores, ela é bastante requisitada para arborizar jardins e parques. A romãzeira-anã, uma variedade de pequeno porte que raramente ultrapassa meio metro de altura, presta-se muito bem para ser cultivada em jarros e vasos. É utilizada somente como planta ornamental por produzir frutos bastante pequenos e quase sempre de sabor acentuadamente ácido, não se prestando para o consumo.