
MARACUJAZEIRO
- UMA CULTURA NÔMADE
O
"maracujá amarelo" , ou simplesmente maracujá como é mais conhecido
- pertencente ao gênero Passiflora L. da família Passifloráceae - tem
seu nome derivado provavelmente da designação "Mara - Cuiá" dada pelos
nossos índios, cujo significado "comida preparada em cuiá" retrata como
eles apreciavam consumir o fruto dessa planta.
"Flor
da paixão", um outro nome dado às diversas espécies deste gênero e menos
usual no Brasil, tem origem bastante mística. A primeira descrição de
Passiflora foi feita em 1.569, com a espécie Passiflora incarnata L.,
porém sob o nome genérico de Granadilla. Essa planta foi enviada ao
papa Paulo V, e este mandou cultiva-la em Roma, informando que ela representava
uma revelação divina. Aliás, escritores do século XVI consideravam bastante
simbólicas as partes da flor, cantada em prosa e verso, sendo que a
parte feminina, constituída por um estigma tripartido, representaria
as três pessoas da Santíssima Trindade; a parte masculina, composta
pelas cinco grandes anteras, simbolizaria as chagas de Cristo; a corona
representaria a coroa de espinhos; e a gavinha, o chicote dos carrascos.
E finalmente em 1.610, Jacomo Boscio apresentou ao mundo o mais extraordinário
exemplo da Croce trionfante, descoberto na floresta e no campo, e o
fez sob o nome de "Flos Passionis", de onde teria derivado o nome popular
"flor da paixão" e o nome científico Passiflora. Considerações estas
que nos dão uma noção geral da misticidade que envolve o maracujazeiro,
e as razões do nome Passiflora, onde encontramos as principais espécies
na família Passifloraceae.
O
Brasil é o centro originário de um grande número de espécies da família
Passifloraceae e tem como seu principal representante o maracujá amarelo.
Sendo o maior produtor mundial, atualmente conta com uma área de 33.000
ha. plantada com a cultura, distribuídas principalmente entre os estados
do Pará, com 8.000 ha.; São Paulo, com 4.300 ha.; Minas Gerais, com
4.000 ha; Bahia, com 3.500 ha.; e Rio de Janeiro, com 2.500 ha. O Rio
grande do Norte (estado do autor do texto) conta com apenas 170 ha.
plantados com o maracujazeiro, localizados principalmente no município
de Jaçanã.
Entre
os aspectos sociais, podemos verificar que a cultura do maracujá caracteriza-se
por ser uma atividade desenvolvida principalmente em pequenas áreas,
com tamanho médio em torno de 3 a 5 ha plantados com a cultura. Isto
ocorre devido a vários fatores, entre eles podemos citar a necessidade
de diminuição do tempo para a renovação da cultura que, na década de
70 era feita a cada 5-6 anos e atualmente acontece no máximo a cada
2 colheitas, chegando a ser renovada anualmente em certas áreas. Outro
fator importante que devemos levar em conta é a diminuição das populações
dos mangangavas na grande maioria das propriedades, ocasionado pelas
constantes pulverizações de inseticidas, fazendo com que seja necessário
o uso de polinizações manuais para a produção do fruto, e esta atividade
precisa do trabalho permanente de 2 a 3 homens por hectare para realizá-la
a contento.
Um
dos principais fatores da drástica redução do tempo de vida da cultura
do maracujazeiro no campo é a ocorrência de doenças que afetam as raízes
da planta após a sua implantação. Os principais problemas enfrentados
pêlos produtores é o controle da "murcha", causada pelo fungo fusarium
oxysporum f. passiflorae que causa a morte repentina da planta em pouco
tempo. Depois de detectado a doença, não existe controle e não se deve
remover as plantas afetadas para evitar o transporte do fungo para outras
áreas. Preventivamente esta doença pode ser evitada, escolhendo-se para
o pomar uma área que já venha sendo trabalhada por longos períodos,
em cultivos de culturas anuais, e que tenha uma topografia levemente
inclinada, a fim de se evitar empoçamento de água. Terrenos recém-desbravados
são contra indicados ao plantio do maracujazeiro.
Outro
fator determinante da redução do tempo de exploração da cultura no campo
é a "morte prematura das plantas" ou "morte súbita", que ocorre geralmente
em plantas adultas e é causada por agentes até então desconhecidos na
sua totalidade. Para se ter uma idéia do problema , no Estado de São
Paulo, em uma área com histórico da ocorrência de morte prematura de
plantas de maracujazeiro, cujo terreno permaneceu em repouso durante
nove anos, instalou-se um lote de maracujá-amarelo consorciado com abacaxi
e laranja no mês de junho, dentro das técnicas recomendadas para as
culturas, e, em dezembro do mesmo ano observou-se que aproximadamente
90% das plantas do maracujazeiro pereceram com os sintomas da doença.
Deduziu-se então, que os agentes patogênicos permanecem no solo por
vários anos por serem facultativos e sobreviverem também como saprófitas.
Em estudos posteriores nestas mesmas plantas afetadas, foram isolados
vários microorganismos que estariam envolvidos diretamente com a doença,
dentre eles, bactérias e fungos, inclusive Fusarium ssp.
Como
ainda não existe controle para estas duas doenças, o produtor tem que
mudar constantemente o local do plantio da cultura, conferindo-lhe um
aspecto migratório ou nômade, por não ser possível nova
implantação do pomar no mesmo local onde ocorreu a doença, mesmo
após decorridos vários anos.
Atualmente
existem basicamente dois sistemas de produção de mudas de maracujazeiro
no Brasil, e ambos utilizam-se de sementes: produção em sacos de polietileno
preto e em tubetes. No entanto, há evidencias de que sementes de plantas
afetadas transportem o fungo causador da murcha que pode ser então introduzido
em áreas novas. A propagação vegetativa também poderá levar doenças
às áreas ainda indenes.
A
propagação assexuada via enxertia já vem sendo utilizada em larga escala
na África do Sul e Austrália, utilizando-se como porta-enxerto, espécies
resistentes às doenças citadas anteriormente. No entanto, no Brasil
esta prática ainda não é comum entre os produtores, principalmente devido
ao fato de ainda não se ter determinado quais as espécies silvestres
resistentes a estas doenças que possam ser utilizadas como porta-enxertos,
preservando a qualidade dos frutos.
A
UFERSA - Universidade Federal Rural do Semi-Árido dispõe atualmente
de 16 espécies silvestres de maracujá, que serão utilizadas em estudos posteriores
para determinação dos melhores porta-enxertos a serem usados na cultura, dependendo
apenas de parcerias para que os projetos possam ser efetivados a contento.
Estas espécies poderão dar um novo rumo à cultura do maracujazeiro no Estado
do Rio Grande do Norte.