UM TESOURO INEXPLORADO

Tamarindus indica L.,

               Planta nativa da África, o tamarindeiro se espalhou de forma aleatória e irracional através do Sudão e, ao longo do tempo, alcançou a Ásia, onde foi introduzida e adotada de forma entusiástica na Índia. Deste país, a planta alcançou a Arábia, onde foi denominada de tamar - al Hindí , que significa "tâmara da Índia", expressão que deu origem aos seus atuais nomes taxonômicos e comum. Foram os árabes que introduziram a planta na península Ibérica, na idade média.
               O tamarineiro, como também é conhecido, alcançou o novo mundo, provavelmente, trazido pelos primeiros navios negreiros provenientes da África. Atualmente é conhecida em quase todos os países tropicais americanos. Nos Estados Unidos, prosperou bem no sul da Flórida, mas foi impossível se aclimatar na Califórnia.
               Em 1587, em seu livro "Tratado Descritivo do Brasil" Gabriel Soares não fez referencias a existência do tamarineiro no nosso país, entretanto, 35 anos mais tarde já é citado como árvore pomareira no livro "Diálogos da Grandeza do Brasil". Aqui, a planta se espalhou largamente, dada a sua habilidade de adaptação em climas tropicais e subtropicais, úmidos, subúmidos, semi-úmido e semi-árido. Atualmente é encontrada nas regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. No Nordeste e no Norte do país, encontramos o tamarineiro em plantações não organizadas e dispersas, devido à pouca ou quase nenhuma atenção dada à cultura, como ocorre em outros países, como por exemplo, a Índia e a Costa Rica.
               O Tamarineiro é uma árvore de vida longa, vivendo de 80 a 100 anos, algumas vezes ainda produzindo aos 200 anos. Seu cultivo requer clima tropical com abundantes chuvas, contudo, é resistente à seca; faltando chuva, pode crescer bem, se regado suficientemente. É freqüentemente visto em solos arenosos perto do litoral. Tolera diferentes solos, crescendo melhor quando os solos são profundos, mas com pouca ou nenhuma cultivação pode crescer em solos pobres e em terrenos rochosos, dada à sua grande adaptabilidade às condições desfavoráveis. Os exemplares mais desenvolvidos encontram-se nas regiões tropicais onde os solos são ricos e profundos.
               A propagação do tamarineiro é feita principalmente por meio de sementes; a percentagem de germinação é elevada e dura semanas. As sementes podem ser transportadas sem nenhuma dificuldade, retendo sua capacidade germinativa por muitos meses quando guardadas em locais frescos. Na semeadura, nascem melhor quando plantadas a 2,50 cm de profundidade, em local claro e com solo arenoso. As plantas jovens são delicadas e devem ser tratadas cuidadosamente para preservá-las do excesso de umidade. As árvores, propagadas dessa forma, mostram grande variação no tamanho e na qualidade do fruto. A estocagem e os diversos modos de enxertias são possíveis. As espécies podem ser enxertadas de gemas com mais facilidade que a manga e o abacate. Árvores propagadas vegetativamente transmitem todas as características da planta mãe, não havendo variação na qualidade da árvore.
               As árvores só atingem a maturidade após 10 a 12 anos, obtendo-se as melhores colheitas depois de decorridos 20 anos do plantio. No entanto, em Madagascar, as árvores com 4 anos de idade já tingem 3 metros de altura e começam a frutificar.
               O tamarineiro floresce duas vezes ao ano sendo a primeira floração nos meses de junho/julho e a segunda ocorrendo de setembro a outubro; os frutos jovens aparecem em novembro e em algumas árvores podem aparecer em agosto e setembro. Como algumas árvores tropicais, apresenta o fenômeno de "safras alternadas" de frutos. Nos seus anos não frutíferos formam-se entretanto alguns frutos mas a safra é escassa em contraste com a exuberante frutificação dos anos frutíferos propriamente ditos. Os rendimentos indicados na literatura são de 150 a 200 kg de fruto por planta ao ano, isto representa cerca de 15 toneladas por ha. O peso médio de um fruto é de 10 a 15g do qual 55% é a polpa ácida, sendo o restante constituído pela casca, sementes e fibras. O Tamarindo da Índia tem geralmente uma polpa mais desenvolvida e mais suculenta que o da África. Existem basicamente dois tipos de tamarindo; um de sabor azedo e outro de sabor doce. A variedade doce é largamente cultivada em algumas partes da Tailândia. Os dois tipos não apresentam características que permitem distingui-los.
               O tamarineiro tem sido utilizado com finalidades alimentícias, medicinais e industriais. É usada na Índia como árvore de sombra, na ornamentação de parques, jardins e avenidas. A casca tem propriedades adstringentes, tônicas e antitérmicas; em decocção é usada em casos de gengivites, asma e inflamação dos olhos; loção e cataplasmas da casca da árvore são aplicadas na cicatrização de feridas. Acredita-se que a infusão de raízes tem valor curativo em doenças torácicas e é um ingrediente nas prescrições contra a lepra.
               As folhas e as flores jovens são comestíveis. Tem agradável sabor e são empregadas em saladas, sopas e condimentos. As flores são melíferas. As folhas possuem vários usos medicamentosos; na forma de loção e extratos são usadas como diuréticos; no tratamento de conjuntivite, como anti-sépticos, analgésicos, vermífugos, e nos tratamentos de disenteria, icterícia e hemorróidas. As cinzas das cascas das vagens são usadas com substâncias alcalinas em fórmulas medicinais e contra indigestão e cólicas.
               Com a polpa pode-se fazer doces, refrescos, xaropes, sorvetes, licores, geléias, etc. É também utilizada como ingredientes em condimentos e molhos. Podemos citar vários usos medicinais da polpa do tamarineiro, tais como: antifebril, laxativo, carminativo, digestivo, colagogo, antiescorbútico. Na "medicina popular", a polpa é utilizada contra inflamação na forma de gargarejo para afecções da garganta e, misturada com sal é usada como linimento para reumatismo; é também administrada para aliviar insolação e intoxicação alcóolica. Também é usada como um fixador com açafroa ou urucum em corantes e serve para coagular o látex da borracha. Ainda, misturada com água do mar, limpa cobre, prata e latão. Alguns pesquisadores propuseram a utilização da polpa do tamarindo para a produção industrial de ácido tartárico, pectina e álcool.
               As semente de tamarindo cozidas ou fritas após a remoção do tegumento, são utilizadas como alimento pela população pobre da Índia. As proteínas da semente são de alto valor biológico, comparável com as proteínas de vários outros cereais. Os polissacarídios presentes nas sementes têm várias aplicações industriais tais como, melhoramento da textura de geléia, estabilização de sorvetes, maioneses e queijos; ingrediente ou agente ativo de vários produtos farmacêuticos (cosméticos, emulcificantes de óleos essenciais, desidratante na fabricação de produtos em pó) e plásticos. Na Índia, 3 mil toneladas são utilizadas anualmente na indústria de juta e algodão para engomamento dos fios, em substituição ao amido de milho de forma mais eficiente e mais econômica.
               De acordo com a medicina Yunani, as sementes são adstringentes, afrodisíacas e anti-helmínticas. O tegumento das sementes é usado contra a diarréia crônica. Apesar de ser a mais ácida das frutas, o tamarindo também é a mais doce delas.
               Já tivemos a oportunidade de citar algumas das características do tamarindeiro, e sua utilização pelos povos de vários países, na medicina popular, como alimento e até mesmo em indústrias, aproveitando-se quase tudo desta árvore que, infelizmente, continua sendo explorada empiricamente.
               O número de alimentos autóctones, ou adaptados, existentes no Brasil é praticamente ilimitado, a maior parte deles permanecem ainda ignorados, conhecendo-se apenas informações oriundas de fontes populares. O tamarindeiro pode ser, de certa forma, incluído nesta lista devida a escassez de trabalhos científicos efetuados nesta cultura.
               Como já foi divulgado, pelo seu agradável aroma e sabor ácido-doce, o tamarindo é muito utilizado na confecção de bebidas, geléias e doces. Embora, geralmente, tenha sido usado para fins culinários, o tamarindeiro representa um inegável potencial industrial e comercial. Entretanto, a estocagem dos frutos por longos períodos é um problema, particularmente devido à fragilidade da casca que se quebra com facilidade, expondo o seu conteúdo às intempéries ambientais. A polpa, durante a armazenagem, torna-se muito escura, amolecida e pegajosa por efeito da degradação pectolítica, alem do que, ocorre grande absorção de umidade , principalmente em climas úmidos. A infestação por insetos é outro problema que deve ser levado em conta na estocagem dos frutos.
               Torna-se evidente a necessidade de estudos de métodos industriais de processamento e de preservação das qualidades alimentícias do tamarindo, ainda mais quando se considera que a cultura tem safras temporárias.
               Os dados bibliográficos mostra que ocorrem diferenças no conteúdo de nutrientes de alguns alimentos provenientes de locais diferentes, fazendo com que as pesquisas se tornem indispensáveis para a determinação da qualidade destes alimentos. Sabe-se , alem do mais, que os fatores de ordem genética influem consideravelmente na composição química dos princípios alimentícios vegetais, como é o caso do tamarindo, que alem de ser consumido na forma in natura também é bastante usado para a fabricação de sucos, sorvetes, etc.
               A variação na composição dos frutos deve-se não só à variedade botânica, podendo também ser alterado com o grau de maturação antes da colheita e pelas condições de armazenamento. De acordo com a pesquisa e a experiência popular, o processamento de frutas reduz seu valor nutritivo, variando com o tipo de processamento envolvido.
               No tratamento térmico, tal como cozimento ou esterilização, o produto final é ainda rico em valor nutritivo quando comparado a matéria prima, mas as enzimas são totalmente inativas. Só com relação às enzimas fazem os frutos frescos diferirem significativamente dos frutos processados, sobretudo os enlatados ou engarrafados.
               O processo de congelação em si não altera o valor nutritivo do alimento (quanto menor for a temperatura, melhor será a retenção das substâncias nutritivas), no entanto, sempre é dado ao alimento um certo tratamento a fim de prepará-lo para a operação de congelação. Assim, a lavagem, corte, branqueamento, despolpamento etc., são operações geralmente necessárias a serem efetuadas ao produto a ser congelado e que podem acarretar perdas de nutrientes, principalmente vitaminas.
               As características físicas do fruto do tamarindeiro nos fornecem informações técnicas sobre seu rendimento industrial, enquanto que as químicas, indicam a qualidade organoléptica tanto para a indústria com par o mercado de frutas secas ou in natura. Os frutos apresentam grande variação quanto ao seu comprimento, número de sementes e peso, como também se apresenta sob diversas formas. Verifica-se também que o tamarindeiro apresenta , em média, de 30 a 40% de rendimento de polpa, tendo um baixo percentual de água, que favorece a industrialização do mesmo, e em conseqüência disto, ele tem um dos mais elevados níveis de carboidratos e proteínas. Enquanto que a maioria dos frutos possuem cerca de 80% de umidade ou mais, o tamarindo apresenta apenas 20%, o que contribui para um maior período de conservação, alem de um alto conteúdo de sólidos totais.
               As características desejáveis de um fruto define o uso a que ele se destina. O tamarindo apresenta, em média, teores de sólidos solúveis totais em torno de 60 %, açucares (sólidos totais - 50%; redutores 30%; e não redutores 15%) e acidez (l2%), os quais são muito elevados e que os torna aptos para a fabricação de diversos produtos. Quanto a relação SST/ATT (Sólidos Solúveis Totais / Acidez Total Titulável) que apresenta em torno de 5, 4, apesar de ser utilizada como um indicador de "flavor" de frutos, ainda não se faz uso dela para avaliar a qualidade do tamarindo. Os teores de proteínas e de aminoácidos também podem ser considerados bons nestes frutos.
               A comercialização do tamarindo ocorre de várias maneiras. O fruto pode ser prensado logo após a retirada da casca e das fibras que envolvem a polpa e a semente, formando-se tabletes que são vendidos em Supermercados para o consumo in natura ou para a fabricação caseira de sucos e refrescos. Existe também a pasta, que nada mais é que o fruto despolpado, sem nenhum tratamento especial. Também encontramos o fruto in natura sendo comercializado nas feiras livres e vendidos em "litros".
               A Índia parece ser o principal produtor de uma safra comercial regular de frutos do tamarindeiro, estimulada em cerca de 250.000 toneladas/ano. A maioria comercializada dentro do país, sendo exportada uma pequena porção, cerca de 3.000 toneladas. Os países árabes recebem 50% desta e o restante vai para o Ceilão, Europa e Estados Unidos. Não existem dados concretos da comercialização do tamarindo no Brasil, principalmente devido à pouca atenção dada à cultura por parte dos órgãos governamentais.