Notícias e Reportagens 
09/02/2018

FORC investiga propriedade anticancerígena
do Mamão Papaya

 

 

 Que comer mamão é bom, todo mundo sabe. Estimula o funcionamento do intestino, é fonte de antioxidantes, vitaminas, etc. Mas o que pesquisadores do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC – Food Research Center) estão descobrindo é que a pectina presente no mamão papaia pode ter efeitos contra o câncer. O FoRC é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP, que reúne pesquisadores de diversas instituições paulistas com o objetivo de desenvolver pesquisas de classe mundial em nutrição e alimentos.

 

“Em nosso laboratório, estamos tentando estabelecer uma relação entre a quantidade de pectina de alguns frutos e seus efeitos biológicos [in vitro]. Nossa hipótese é que a pectina do mamão papaia tenha efeito de minimizar a proliferação de células de câncer”, explica João Paulo Fabi, pesquisador do FoRC e professor do Departamento de Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. Ele acredita que, no futuro, caso as pesquisas comprovem os efeitos benéficos da pectina do mamão papaia, será possível desenvolver suplementos ricos nessa substância para auxiliar num tratamento quimioterápico.

 

 A pectina é uma mistura de diversos polissacarídeos com diferentes características (devido aos diferentes pesos moleculares e composição de monossacarídeos). Fabi explica que os efeitos das pectinas modificadas de alguns frutos, como citros e maçã, já vêm sendo estudados. “O que levou os cientistas a aventarem a possibilidade de que as pectinas pudessem ter efeitos anticancerígenos é o fato de que algumas de suas ramificações podem se ligar a uma proteína que se chama galectina-3. Essa proteína, quando expressa excessivamente nas células, provoca efeito deletério.”

 Segundo o pesquisador, a galectina-3 é normalmente produzida pelo organismo e é benéfica quando expressa em certo nível. Entretanto, a célula que começa a super expressar a galectina-3 já está num estado inicial de neoplasia. Ela não obedece mais à “morte celular programada” chamada cientificamente de apoptose. “A galectina-3 super expressa se auto induz, sendo uma das ferramentas que faz com que o câncer fique agressivo e acabe virando metástase. Não é só por causa dela que o câncer cresce, mas ela ajuda.”

 De acordo com o pesquisador, a galectina é uma lectina que tem alta afinidade por galactose. E determinados tipos de pectina têm ramificações ricas em galactose. “As células têm, na sua membrana, diversos tipos de açúcares. Um deles é a galactose, que pode estar ligada à membrana celular ou a proteínas glicosiladas. Alguns pesquisadores supõem que, se as pectinas não fossem totalmente quebradas pelas bactérias do intestino grosso, de alguma maneira elas poderiam ter ação local ou sistêmica competindo com as galactoses das células, fazendo com que a galectina-3 não se ligue a elas e minimizando seus efeitos deletérios. Ou seja: seria possível diminuir o ritmo de crescimento de uma célula de câncer com a administração da pectina.”


 

Amadurecimento – Fabi investiga se a pectina do mamão papaia tem interação com a galectina-3 e algum efeito em cultura de células de câncer. “Já sabemos que realmente há uma interação com a galectina-3 e um efeito benéfico em cultura de células, mas estamos trabalhando in vitro. Pretendemos fazer in vivo, como já existem estudos para as pectinas de citros e maçã. Nestes casos, já se observou que, quando cobaias portadoras de algum tipo de câncer que super expressava a galectina-3 eram alimentadas com as pectinas modificadas dessas frutas, o câncer era menos agressivo e tinha um menor número de metástases.”

 Só que, no caso de citros e maçã, é necessário modificar quimicamente as pectinas. “Elas têm de ser modificadas porque, em sua forma natural, não apresentam os efeitos esperados de inibição da galectina-3.” Mas Fabi e sua equipe acreditam que, no caso do mamão, não será necessário modificar quimicamente a pectina para que ela tenha efeito de minimizar as células cancerígenas.

 O mamão, que é um fruto climatérico (amadurece fora do pé e tem um pico de produção de etileno durante o amadurecimento), tem um tempo de amadurecimento muito rápido. Ele tem enzimas endógenas que fazem a parede celular ser degradada. Com isso, a polpa dura do fruto verde fica mole no fruto maduro. “Descobrimos diversas enzimas que fazem esse papel, e também que a quebra dessa parede celular é muito rápida e muito extensa. Os genes relacionados à degradação da parede celular durante o amadurecimento são os mesmos genes responsáveis pela degradação da pectina. Então, estamos trabalhando com a hipótese de que, no caso do mamão, o responsável pela modificação da pectina, cujos efeitos seriam benéficos para os seres humanos, é o próprio processo de amadurecimento do fruto.”

 Para provar sua hipótese, o pesquisador acompanha o amadurecimento dos frutos por meio de alguns parâmetros: a respiração do fruto (analisando o CO2 liberado por ele durante o amadurecimento); a quantidade de etileno produzida e liberada pelo fruto e a textura da polpa.

 Experimentos in vitro – A equipe do professor, formada por dois alunos de doutorado, três de mestrado, dois de iniciação científica e uma técnica de laboratório, extrai quimicamente as frações solúveis em água da polpa dos frutos. Mas, para isso, precisa antes retirar pigmentos, lipídios e proteínas, até sobrarem apenas os polissacarídeos da parede celular, solúveis em água e compostos principalmente por pectinas. Os cientistas então analisam as características dessas pectinas: a composição dos monossacarídeos e suas ligações, os pesos moleculares... E dessa forma conseguem visualizar a estrutura da pectina e caracterizá-la. “Assim sabemos o que vamos aplicar nas células.”

 Como a pectina é uma mistura de polissacarídeos, ela é formada por várias moléculas, heterogêneas. Por isso, é difícil estabelecer uma relação entre a estrutura da pectina e sua atividade. Já que é uma mistura, como saber o que está fazendo efeito? “Temos técnicas analíticas de separação dessas pectinas por características das moléculas, seja por diferença de peso molecular, características iônicas, ou dos monossacarídeos que as compõem. Estamos fracionando essa pectina e trabalhando também com as frações.”

 Entre as diversas frações possíveis, Fabi e seu time trabalham atualmente com cerca de 20. “Fazemos uma análise prévia dos monossacarídeos dessas frações. A gente sabe que os oligossacarídeos e polissacarídeos que inibem a galactina-3 têm de ser ricos em galactose. Na análise prévia, detectamos os que têm maior quantidade de galactose e apostamos neles.”

 A pectina e/ou suas frações são aplicadas em células humanas de câncer de cólon, mas antes têm de ser esterilizadas para evitar contaminação por bactérias, fungos, etc. Os cientistas vão acompanhando como essas células estão se comportando, medindo a quantidade remanescente de células após a aplicação da pectina e/ou suas frações. Há um grupo controle de células que não recebe a pectina e as frações. O experimento dura quatro dias.

 

“Notamos que, no grupo controle, a célula cancerígena continua crescendo. No grupo tratado com as pectinas e algumas frações, elas crescem menos. O que quer dizer que há células morrendo e células proliferando menos. Ou seja: o tratamento estimulou a apoptose. Agora, estamos querendo saber quais os mecanismos moleculares, dentro da célula, responsáveis por essas alterações decorrentes do tratamento com as pectinas de mamões.”

Forc - Centro de pesquisas em Alimentos